Nesta sexta-feira (20), Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, saiba como funciona o Caps AD; capital tem 35 unidades
A rede municipal de saúde oferece atendimento e tratamento gratuitos para pessoas com dependência química. Nesta sexta-feira (20), Dia Nacional de Combate às Drogas, a Prefeitura de São Paulolreforça que a capital conta com 104 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) voltados à saúde mental. Desse total, 35 unidades são especializadas no atendimento a pessoas com transtornos causados pelo uso de álcool e outras drogas (Caps AD).
Os Caps AD acolhem usuários de substâncias psicoativas sem necessidade de agendamento prévio ou encaminhamento. As unidades dispõem de equipes multiprofissionais formadas por médico psiquiatra, médico clínico, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, enfermeiro, farmacêutico e educador físico.
Em conjunto, os profissionais elaboram o Projeto Terapêutico Singular (PTS), que analisa o quadro de dependência considerando o tempo de uso, o tipo de substância e as necessidades específicas de cada paciente.
“A dependência química em álcool e drogas é um transtorno mental bastante complexo, que envolve questões biológicas, sociais e psicológicas. E grande parte dos pacientes têm comorbidades, ou seja, além do vício eles têm outra doença mental como depressão e ansiedade”, explica a médica psiquiatra Ana Lúcia Paya Benito, responsável técnica do Caps AD III Boracea, localizado na Barra Funda, região central de São Paulo.
De acordo com a especialista, o preconceito ainda é um dos principais obstáculos para que as pessoas busquem ajuda. “As pessoas acham que o dependente pode parar de usar as substâncias no momento que quiser. Até o próprio dependente acredita nisso; como resultado, ele não procura ajuda, o que aumenta ainda mais o seu sofrimento, seja com o aprofundamento da adicção, seja com a perda dos vínculos familiares.”
Oficinas terapêuticas
Assim como as demais unidades na modalidade III, o Caps AD III Boracea oferece atendimento diário por meio de oficinas terapêuticas, além de vagas para acolhimento integral. Nesses casos, os usuários podem permanecer na unidade durante os períodos mais agudos da doença, recebendo acompanhamento intensivo.
Além do tratamento medicamentoso e das terapias em grupo, a unidade promove oficinas artísticas e atividades esportivas, que auxiliam no processo de reabilitação e na reconstrução de vínculos sociais.
Recomeço
A virada do ano marcou um ponto de mudança na vida de E. F. da S., de 33 anos. “Acordei jogado na sarjeta, sem celular e sem carteira. Foi então que percebi que precisava de ajuda para deixar o álcool porque eu não conseguiria sozinho”, relata.
Ele foi acolhido no Centro Temporário de Acolhimento Boracea e encaminhado ao Caps AD III Boracea, onde permaneceu em acolhimento integral para tratamento médico e participação nas oficinas terapêuticas. “Tento que manter a cabeça ocupada. Outro hábito que desenvolvi e tem me ajudado bastante é a leitura. Antes, eu odiava ler. Comecei com uma frase, depois duas frases. Agora passo horas na leitura.”
O contato com o álcool começou ainda na adolescência; o uso de crack veio anos depois. “Meus pais bebiam. Na adolescência, comecei a beber com meus amigos. Eu achava que era normal e não percebia que estava excedendo.”
Após o fim do casamento, E. enfrentou um quadro de depressão e intensificou o consumo das substâncias. Foram seis internações e diversas recaídas ao longo do caminho. “Cheguei a ponto de morar na rua. Vivia igual lixo. Até que meus filhos me viram na feira pedindo comida. Foi quando decidi parar com o crack. Fui diminuindo aos poucos e hoje não sinto mais vontade. Mas aumentei o consumo de álcool”, conta.
Segundo ele, o atendimento no Caps tem sido decisivo no processo de recuperação. “Pela primeira vez na vida, senti que fui ouvido. Também voltei a me cuidar: tomar banho, fazer a barba. E me ajudaram a me organizar, planejar como será daqui para a frente.”
Agora, ele pretende retornar ao antigo trabalho na lavoura, em São Miguel Arcanjo, no interior de São Paulo, sua cidade natal. No futuro, espera retomar o contato com os dois filhos, de 10 e 9 anos.











