O mercado da leguminosa vive um cenário atípico: as cotações estão elevadas para o produtor rural, mas a falta de incentivo à expansão da área plantada, os estoques restritos e as ameaças climáticas colocam o consumidor na linha de tiro de novos altos recordes.
Por Redação Jornal União São Paulo
Foto gerada pelo chat gpt
O feijão-carioca, um dos pratos principais da base alimentar brasileira, pode alcançar a marca de R$ 12 o quilo em algumas regiões do país em fevereiro de 2027. O alerta, que acende um sinal vermelho para o orçamento das famílias, vem de projeções do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe) e reflete uma dinâmica de mercado complexa: o grão está caro no campo, continua em trajetória de alta, mas essa valorização não tem sido suficiente para convencer o agricultor a plantar mais.
Para o consumidor final, a matemática da roça se traduzirá em pressão direta nas prateleiras dos supermercados logo no início do próximo ano.
Por que o preço sobe se o produtor está vendendo caro?
A aparente contradição de ter um produto valorizado na origem e, ainda assim, enfrentar escassez e preços proibitivos na ponta final explica-se por uma combinação de fatores estruturais da agricultura nacional:
Concorrência implacável com a soja: Tradicionalmente, o mercado mede a paridade de risco e retorno entre as culturas. Na referência utilizada pelo setor, duas sacas de soja equivalem aproximadamente a uma saca de feijão. Com a soja cotada em patamares elevados (próximos à R$ 152 por saca), o feijão precisaria render cerca de R$ 304 por saca para remunerar o produtor. Embora o feijão-carioca tenha alcançado essa faixa de preço recentemente, a equivalência financeira não garante o mesmo apelo agronômico.
Segurança e Liquidez: Enquanto a soja conta com forte suporte de tradings internacionais, garantias de compra externa e enorme liquidez, o feijão carrega um risco operacional e comercial consideravelmente maior. Além disso, a soja demonstra maior resiliência a intempéries climáticas do que a leguminosa.
Retração na área plantada: Diante de margens apertadas e riscos elevados, o produtor tem preferido realizar o lucro imediato das vendas atuais a preços remuneradores, reduzindo sua exposição e os custos de armazenagem. Como consequência, estados produtores estratégicos — como o Paraná — já sinalizam encolhimento na área da primeira safra do ciclo 2026/2027, projetando o menor nível de plantio em mais de uma década para o período.
Estoques baixos e a sombra do El Niño
O mercado atravessa o segundo semestre com estoques minguados justamente no momento em que deveria acumular reservas para fazer a ponte com os primeiros meses do ano seguinte.
Como se não bastasse a retração na área de cultivo, as previsões climáticas indicam a forte influência do fenômeno El Niño sobre a primavera e o verão. Para o feijão — uma cultura altamente sensível ao excesso de chuvas e à oscilação de umidade no solo —, o cenário de instabilidade climática ameaça tanto o volume colhido quanto a qualidade final dos grãos (padrão comercial e coloração clara, muito valorizados pelo consumidor).
As alternativas nas gôndolas também são limitadas. O feijão-preto e o feijão-caupi não apresentam estoques folgados no mercado interno, com o Brasil recorrendo recorrentemente à importação (especialmente da Argentina) para suprir a demanda. Caso o carioca bata os R$ 12, o consumidor dificilmente encontrará um substituto economicamente viável na mesma prateleira.
Perspectivas
Se as projeções do Ibrafe se confirmarem, o brasileiro precisará redobrar o planejamento doméstico para absorver mais esse impacto na inflação de alimentos. O alívio nos preços só deverá desenhar alguma trégua mais consistente mais adiante no ano, dependendo do comportamento da colheita e da entrada de safras futuras. Até lá, “ter o produto” com qualidade garantida continuará ditando as regras de um mercado espremido entre margens de risco no campo e o limite do bolso do consumidor.












