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sábado, 31 de outubro de 2026

Luto na infância: como ajudar as crianças a compreender e enfrentar as perdas

Leia o artigo da psicóloga infantil Aline Biano

Por Aline Biano

Foto: Arquivo pessoal Aline Biano

Falar sobre a morte com sensibilidade, acolher as emoções e respeitar o tempo de cada criança são atitudes fundamentais para ajudá-la a atravessar a experiência do luto.

Falar sobre a morte e a perda nunca é uma tarefa fácil. Quando envolve uma criança, esse desafio pode se tornar ainda maior. Muitas vezes, na tentativa de protegê-la do sofrimento, os adultos evitam o assunto, escondem o que aconteceu ou recorrem a explicações que consideram mais suaves. No entanto, o silêncio nem sempre protege. Em algumas situações, ele pode aumentar a insegurança e dificultar a compreensão daquilo que a criança está vivenciando.

O luto é uma experiência humana que faz parte da vida e pode surgir diante de diferentes perdas, como a morte de alguém querido, a ausência de uma pessoa importante ou mudanças significativas nos vínculos afetivos. Embora seja frequentemente associado aos adultos, as crianças também vivenciam o luto. A diferença está na maneira como compreendem, expressam e elaboram essa experiência, aspectos que variam conforme a idade, o desenvolvimento emocional, a relação com a pessoa que partiu e o apoio recebido.

A criança também sofre, mesmo quando não consegue colocar sua dor em palavras.

Na infância, o entendimento sobre a morte se desenvolve gradualmente. Crianças pequenas podem ter dificuldade para compreender que a morte é definitiva e, por isso, fazer perguntas repetidas ou esperar que a pessoa volte. Outras podem demonstrar tristeza em um momento e, pouco depois, retomar as brincadeiras. Essa alternância não significa necessariamente que não estejam sofrendo. Brincar também é uma maneira de se relacionar com o mundo, organizar experiências e encontrar momentos de alívio diante de sentimentos difíceis.

Além disso, nem sempre o sofrimento aparece por meio do choro. Algumas crianças podem apresentar irritabilidade, medo de se separar dos responsáveis, dificuldades para dormir, mudanças no comportamento, queda no rendimento escolar ou necessidade maior de atenção e proximidade. Essas manifestações precisam ser compreendidas com sensibilidade, considerando a história de cada criança e as circunstâncias da perda, sem presumir que todo comportamento diferente seja consequência do luto.

Como conversar sobre a perda?

Um dos principais cuidados é conversar com a criança de maneira honesta, utilizando palavras adequadas à sua idade e ao seu nível de compreensão. Quando ocorre uma morte, expressões como “foi viajar”, “foi dormir” ou “virou estrelinha”, embora muitas vezes utilizadas com a intenção de amenizar a dor, podem gerar confusão, especialmente nas crianças menores. Elas podem interpretar essas frases literalmente e desenvolver medo de dormir ou de se afastar de pessoas queridas.

O ideal é explicar o que aconteceu com delicadeza e clareza, respeitando as crenças e os valores da família. Dizer que a pessoa morreu e que seu corpo deixou de funcionar pode ajudar a criança a compreender a realidade da perda. É importante oferecer informações aos poucos, responder às perguntas com sinceridade e permitir que ela pergunte novamente sempre que precisar.

Também é fundamental que os adultos não tentem eliminar todas as manifestações de tristeza. Frases como “você precisa ser forte”, “não chore” ou “já passou” podem transmitir, mesmo sem intenção, a ideia de que determinados sentimentos não devem ser expressos.

Em vez disso, podemos dizer: “Eu sei que você está com saudade. Também sinto falta dessa pessoa. Podemos conversar sobre isso sempre que você quiser”.

Ao reconhecer a dor da criança, o adulto demonstra que ela não precisa enfrentar o sofrimento sozinha. Acolher não significa ter todas as respostas, mas estar disponível para escutar, oferecer segurança e respeitar o tempo necessário para compreender o que aconteceu.

A importância das lembranças e dos rituais de despedida

Criar oportunidades para recordar a pessoa que morreu pode ajudar a criança a dar significado à experiência da perda. Ver fotografias, contar histórias, preparar um desenho, escrever uma carta ou organizar uma pequena homenagem são possibilidades que permitem expressar sentimentos e preservar lembranças afetivas.

Esses rituais devem respeitar a idade, o desejo e as condições emocionais da criança, sem obrigá-la a participar de situações para as quais não se sente preparada. O mais importante é que ela tenha a oportunidade de se despedir à sua maneira e compreenda que pode continuar falando sobre quem partiu.

A elaboração do luto não significa esquecer alguém ou deixar de sentir saudade. Significa, gradualmente, encontrar formas de conviver com a ausência e integrar essa experiência à própria história.

Ao oferecer espaço para a expressão das emoções, os adultos também contribuem para o desenvolvimento de recursos emocionais importantes, como a capacidade de reconhecer sentimentos, pedir ajuda, tolerar frustrações e enfrentar mudanças. Não se trata de tornar a criança imune à dor, mas de ajudá-la a descobrir que sentimentos difíceis podem ser acolhidos e atravessados com apoio.

Quando procurar ajuda psicológica?

Cada criança tem seu próprio tempo para elaborar uma perda. Não existe um prazo único para o luto terminar, e a intensidade das manifestações pode variar ao longo do processo. Entretanto, quando o sofrimento é muito intenso, persiste sem sinais de melhora ou interfere significativamente na rotina, no sono, na alimentação, nas relações ou na vida escolar, é importante buscar orientação profissional.

A psicoterapia pode oferecer um espaço seguro para que a criança expresse aquilo que, muitas vezes, ainda não consegue explicar com palavras. Por meio da brincadeira, do desenho, das histórias e de outros recursos adequados ao seu desenvolvimento, o psicólogo pode ajudá-la a compreender suas emoções e construir maneiras de lidar com a ausência.

O acompanhamento também pode incluir orientações aos responsáveis, auxiliando a família a reconhecer as necessidades da criança e a oferecer suporte durante esse período. Quando necessário, a articulação com a escola contribui para que os adultos que convivem com ela compreendam as mudanças observadas e possam acolhê-la de maneira consistente.

É importante lembrar que a psicoterapia não tem como objetivo apagar a dor ou acelerar o fim do luto. Seu papel é favorecer a elaboração da perda, respeitando a singularidade de cada criança e os recursos emocionais de que dispõe naquele momento.

Acolher hoje para ajudar a enfrentar as perdas de amanhã

A infância é uma etapa de construção de recursos emocionais que serão importantes ao longo de toda a vida. Quando uma criança encontra adultos capazes de conversar sobre a perda, reconhecer seus sentimentos e permanecer ao seu lado nos momentos difíceis, ela aprende que a tristeza não precisa ser escondida e que pedir ajuda é uma possibilidade.

Não podemos impedir que as crianças vivenciem perdas, mas podemos ajudá-las a atravessá-las com mais segurança e acolhimento. Isso exige disponibilidade para escutar, coragem para conversar sobre assuntos difíceis e respeito pelo tempo de cada uma.

Falar sobre o luto é também falar sobre os vínculos que construímos, as lembranças que permanecem e a possibilidade de seguir vivendo mesmo quando alguém importante deixa de estar presente fisicamente.

A criança não precisa ser poupada de todos os sentimentos difíceis. Ela precisa saber que, quando eles chegarem, não estará sozinha.

Aline Biano
Psicóloga Infantil
@psicoalinebiano

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