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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pode uma inteligência artificial ajudar empresas a serem mais humanas?

Leia o artigo da neurocientista Marina Marzotto Mezzetti

Por Marina Marzotto Mezzetti

Foto: Arquivo pessoal / Marina Marzotto Mezzetti

Por muito tempo, nos acostumamos a enxergar tecnologia e humanização como forças opostas dentro das empresas. De um lado, sistemas, automação e eficiência. Do outro, empatia, escuta e relações humanas. Essa separação, no entanto, começa a se mostrar não apenas limitada, mas ultrapassada.

Estamos diante de uma nova geração de soluções que não apenas processam informações, mas são capazes de interpretar aquilo que sempre foi considerado intangível: as emoções.

Na minha visão, a pergunta que as empresas deveriam se fazer hoje não é se a inteligência artificial vai substituir o fator humano mas se estão preparadas para utilizá-la como aliada na construção de ambientes mais saudáveis, produtivos e, de fato, humanos.

O cenário brasileiro evidencia que essa não é uma discussão abstrata. Dados da Gallup indicam que 72% dos profissionais no país estão desengajados. Ao mesmo tempo, o chamado presenteísmo emocional quando o colaborador está fisicamente presente, mas mentalmente desconectado pode reduzir em até 34% a produtividade anual. Esses números revelam uma lacuna silenciosa: as empresas ainda têm dificuldade de acessar, compreender e agir sobre o que as pessoas sentem.

Foi a partir dessa constatação que desenvolvemos a Normalyze, a primeira inteligência artificial emocional reguladora do Brasil. Mais do que uma inovação tecnológica, enxergo essa iniciativa como um marco de mudança de mentalidade: o reconhecimento de que a saúde emocional pode e deve ser gerida com o mesmo rigor estratégico de qualquer outro indicador de negócio.

O ponto mais transformador, na minha perspectiva, está na capacidade de converter emoção em dado, e dado em decisão. Quando deixamos de depender exclusivamente da percepção subjetiva e passamos a contar com evidências estruturadas, inauguramos o fim do “achismo” na gestão emocional e o início de uma nova era: a da escuta inteligente.

E é justamente aqui que reside a grande virada. Quando a escuta deixa de ser pontual e reativa e passa a ser contínua, estruturada e analisável, a empresa ganha uma nova camada de consciência sobre si mesma. Ela passa a enxergar padrões, antecipar riscos e compreender dinâmicas que antes permaneciam invisíveis.

Os resultados iniciais das empresas que adotaram esse tipo de abordagem reforçam essa percepção. Mais do que ganhos operacionais, o que se observa é algo mais profundo: as pessoas querem falar, querem participar e, sobretudo, querem ser ouvidas desde que exista um ambiente seguro para isso.

Quando uma tecnologia é construída a partir da neurociência, da escuta ativa e da inteligência emocional, seu papel deixa de ser o de vigilância e passa a ser o de tradução. Tradução de sinais sutis, de comportamentos recorrentes, de sentimentos que raramente chegam aos líderes de forma clara ou estruturada.

Ao oferecer indicadores como risco de burnout, turnover, coerência cultural e até mesmo ROI emocional, a inteligência artificial não substitui o gestor. Pelo contrário, ela o potencializa. Permite que ele esteja mais preparado, mais consciente e mais capacitado para agir de forma preventiva, antes que pequenos sinais se transformem em crises.

Há também um impacto relevante na cultura organizacional. Líderes sempre foram, em alguma medida, reguladores emocionais de suas equipes. A diferença agora é que eles podem exercer esse papel com mais precisão, apoiados por dados que reduzem vieses e ampliam a qualidade das decisões e das relações.

No fim, volto à pergunta inicial: pode uma inteligência artificial ajudar empresas a serem mais humanas? A minha resposta é sim!

Humanizar empresas nunca foi sobre abrir mão de performance, mas sobre compreender que resultados sustentáveis são consequência direta de pessoas emocionalmente equilibradas. Se a inteligência artificial é capaz de ampliar a escuta, antecipar riscos e orientar decisões mais conscientes, então ela não está desumanizando o trabalho. Pelo contrário: está ajudando a resgatar aquilo que muitas organizações perderam ao longo do tempo.

Em um mundo onde quase tudo pode ser automatizado, talvez o verdadeiro diferencial competitivo esteja justamente na capacidade de usar a tecnologia para cuidar melhor de quem faz tudo acontecer.

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