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sábado, 5 de setembro de 2026

Na era da Inteligência Artificial, o que ainda será só nosso?

Leia o artigo da especialista em pessoas e negócios, Débora Martins

Por Débora Martins

Foto: Arquivo pessoal Débora Martins

Durante muito tempo, construímos nossa identidade profissional a partir daquilo que sabíamos fazer. Aprendemos uma profissão, desenvolvemos competências e associamos nosso valor à capacidade de executar determinadas tarefas com excelência.

A inteligência artificial está colocando essa lógica em xeque.

Hoje, ferramentas de IA podem escrever, analisar dados, criar apresentações, desenvolver estratégias, programar e produzir imagens em poucos segundos. Diante disso, talvez a pergunta mais importante não seja “o que a IA será capaz de fazer?”, mas o que queremos continuar fazendo?

Se todos tivermos acesso a capacidades cada vez mais semelhantes, o que fará um profissional ser escolhido?

Talvez a resposta esteja menos naquilo que conseguimos produzir e mais naquilo que conseguimos enxergar, questionar, decidir e transformar.

A IA democratiza capacidades. Quem nunca programou pode experimentar programação. Quem não é designer pode criar imagens. Quem não trabalha com dados pode gerar análises e insights.

Isso é extraordinário, mas também cria um desafio: podemos ter profissionais extremamente produtivos e, ao mesmo tempo, cada vez mais parecidos.

É nesse cenário que repertório, pensamento crítico, curiosidade, sensibilidade, capacidade de escuta e coragem para discordar ganham valor.

A ferramenta pode gerar uma resposta. O discernimento decide se ela faz sentido.

Pode apresentar dez ideias. Cabe a nós escolher qual merece virar realidade.

Por isso, acredito que estamos saindo de uma lógica de simples adaptação para uma lógica de autoria.

Adaptar-se continuará sendo fundamental. Mas não podemos passar a carreira inteira apenas reagindo às mudanças. Em algum momento, precisamos perguntar: onde estou eu em tudo isso?

Essa reflexão também envolve nossa autoestima profissional.

Quando uma competência que levamos anos para desenvolver passa a ser executada por uma tecnologia em segundos, é natural questionarmos nosso próprio valor. Mas precisamos separar nossa capacidade de produzir do nosso valor.

Nosso valor profissional também está na nossa história, no repertório, nas perguntas que fazemos, nas relações que construímos e nas mudanças que somos capazes de provocar.

O maior risco talvez não seja a IA fazer nosso trabalho. É terceirizarmos tanto que, em algum momento, fique difícil reconhecer o que ainda é nosso.

Essa discussão também precisa chegar às empresas. Existe uma diferença entre perguntar “isso pode ser automatizado?” e “isso deveria ser automatizado?”

É importante usar tecnologia para eliminar burocracias e tarefas repetitivas. Mas nem tudo precisa ser feito da forma mais rápida.

Construir confiança leva tempo. Desenvolver pessoas leva tempo. Ouvir opiniões diferentes pode atrasar uma decisão. Uma boa liderança nem sempre acontece pelo caminho mais curto.

Se eficiência se tornar o único critério, podemos construir empresas extremamente produtivas e, ao mesmo tempo, pobres em relações humanas.

A tecnologia também está transformando a maneira como construímos nossas carreiras.

A trajetória profissional, antes pensada de forma mais linear, está dando espaço a combinações de competências. O profissional de marketing que entende tecnologia, a pessoa de tecnologia que sabe construir comunidades ou o executivo que utiliza IA para criar produtos com equipes menores.

Talvez muitas pessoas estejam construindo hoje uma carreira cujo nome ainda nem existe.

Isso pode ser assustador, mas também representa liberdade.

Nesse novo cenário, talvez o cargo deixe de ser suficiente para explicar quem somos profissionalmente. As combinações de competências, experiências e interesses serão cada vez mais importantes.

Deixar uma marca profissional não significa necessariamente ser conhecido por muita gente.

É olhar para algum lugar por onde passamos e perceber que alguma coisa ficou diferente porque estivemos ali.

Uma pessoa cresceu. Uma ideia saiu do papel. Uma decisão mudou. Um problema passou a ser visto de outra maneira.

O profissional que deixará uma marca não será necessariamente aquele que produz mais rápido ou utiliza mais ferramentas.

Será aquele que consegue usar toda essa potência tecnológica sem abrir mão da própria autoria.

A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade, acelerar processos e nos ajudar a fazer mais. Mas ainda cabe a nós decidir o que vale a pena fazer, por quê, para quem e com que impacto.

Talvez essa seja uma das grandes questões do futuro do trabalho. Não se trata apenas de descobrir o que a tecnologia fará por nós, mas de decidir o que queremos continuar sendo capazes de fazer por nós mesmos e pelos outros.

Quando a execução deixa de ser o principal diferencial, nossa humanidade, nosso repertório e nossa capacidade de transformar pessoas e contextos podem se tornar justamente aquilo que nos torna insubstituíveis.

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