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segunda-feira, 9 de março de 2026

Maternidade em cena: apoio real ou projeção identitária?

Nossa experiência com crianças e adolescentes mostra uma dinâmica social recorrente: mães que dedicam suas rotinas à gestão minuciosa da vida dos filhos. Seja comigo, Renata Munhoz (@profarenatamunhoz), na Educação; ou comigo, Fernanda Corasini (@consultoria_canguru), no meio artístico. Nos estudos, as mães se empenham para que os filhos cumpram da melhor forma a rotina escolar por vezes tão exaustiva dos grandes colégios, com avaliações diárias e longa rotina de estudo. No meio artístico, extremamente competitivo, a dinâmica também exige disciplina e constância.
Essa presença, por vezes mediada por consultorias especializadas como a Canguru, levanta um debate profundo sobre o papel materno na construção do futuro estudantil e profissional da criança. Se a busca pelo bilinguismo precoce na educação é sinônimo de “passaporte para o futuro”, a inserção da criança no mercado de trabalho artístico pode significar a materialização de sonhos e o alcance de prestígio social.
A participação ativa da mãe é, inegavelmente, um diferencial na vida do estudante e do ator mirim. No entanto, a linha entre o apoio e a projeção de desejos pessoais é tênue. De acordo com a Dra. Shefali Tsabary, em sua obra Pais conscientes, vínculos indestrutíveis, as relações parentais podem operar sob um “legado de carência”, de modo que os filhos sejam conduzidos a realizarem aquilo que os pais não conseguiram alcançar em suas próprias vidas. No contexto de atores mirins, o risco é alto e exemplos não faltam dessas relações tóxicas. Afinal, é muito simples converter o talento nato da criança ou o desejo infantil de atuar em uma busca ambiciosa por fama e dinheiro.
A psicologia do desenvolvimento, apoiada por estudos sobre a “maternidade consciente”, alerta para o perigo de sufocar a subjetividade do menor em planos e projetos de carreira. Quando a escolha profissional é imposta, a criança pode desenvolver o que o pediatra e psicanalista Donald Winnicott descreveu como o “falso self”, uma personalidade adaptada apenas para satisfazer as expectativas externas e garantir o afeto e a aprovação dos pais. Nesse contexto, defendemos que o bom desempenho em uma carreira, como decorrência do empenho e do bom rendimento escolar, devem ser conduzidos como um processo que exige a disciplina para a aquisição real de habilidades. Nunca um mero instrumento de poder ou de distinção social que anule a espontaneidade da infância.
A consultoria Canguru atua justamente na profissionalização dessa jornada, instruindo as mães a serem gestoras, mas, acima de tudo, guardiãs da infância dos filhos. Para isso, as estratégias didáticas de construção de monólogos não extrapolam a esfera do aprendizado e do encantamento. Do mesmo modo, o investimento de tempo na construção do portfólio artístico representa a sólida construção de um capital cultural, nunca um aprisionar dos desejos genuínos da criança.
Neste breve texto, pretendemos conduzir à reflexão sobre os tantos desafios da maternidade que, além das inúmeras demandas concretas, conta com o saber lidar com os desejos da própria mãe. Sendo assim, nosso desejo é que nós, mães, sejamos propulsoras de nossos filhos em suas múltiplas instâncias. A exemplo do que diz Andrew Solomon na obra Longe da Árvore, o amor consciente contribui para o desenvolvimento pleno e aceita a identidade real dos filhos, mesmo que distanciada das próprias expectativas. Afinal, entendemos que o verdadeiro sucesso não está no brilho dos holofotes, mas na gratidão genuína de um adulto que, de mãos dadas com sua mãe, pôde escolher o seu próprio palco.

Por @profarenatamunhoz e @consultoria_canguru

Fotos: @diegomacielfotografia e @fotografomichaelw

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