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quinta-feira, 30 de julho de 2026

A importância da escuta ativa

Por Renata Munhoz e Agatha Feiten

Foto: Arquivo pessoal / Renata Munhoz e Agatha Feiten

Diferente de apenas “ouvir”, o verbo “escutar” representa um ato de presença humana real. Em tempos de pressa, com excesso de informações e muito tempo de tela, escutar verdadeiramente tornou-se um gesto raro! Isso porque passamos a robotizar as práticas cotidianas e conseguimos viver cercados de atividades que nos exigem pouca atenção intencional.

A escuta vai muito além das palavras. Ela exige disponibilidade para encontrar o outro em sua singularidade. Afinal, ninguém fala apenas pela voz. O corpo fala, as expressões do rosto falam, os gestos falam, a forma como alguém ocupa um espaço também diz muito sobre quem essa pessoa realmente é. Até os silêncios carregam uma mensagem. Escutar engloba, então, reconhecer tudo isso.

Existe também um outro movimento, o de saber escutar a nós mesmos. Atravessados por tantos estímulos, parar para nos escutar parece ter se tornado raridade. René Descartes escreveu que “Penso, logo existo”. A frase atravessou séculos, e hoje ela me desperta outra pergunta. Existo como? De que maneira tenho vivido? Tenho existido no automático, acompanhando o ritmo acelerado da sociedade, ou tenho conseguido estar presente em meus próprios movimentos, sentimentos e escolhas? Sustentar a presença da escuta do outro e de nós mesmos é um exercício de presença.

Essa reflexão encontra eco em um dos textos mais conhecidos de Rubem Alves, Escutatória. Logo nas primeiras linhas, o autor provoca o leitor com uma constatação desconcertante: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar… Ninguém quer aprender a ouvir.” A observação permanece atual. Vivemos cercados por cursos que prometem ensinar liderança, argumentação, influência e comunicação. Pouco se fala, porém, sobre a capacidade que sustenta todas essas competências: a de escutar com total humanidade.

Rubem Alves vai além ao afirmar que ouvir exige um silêncio que não é apenas exterior, mas interior. Inspirando-se em Alberto Caeiro, escreve: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” A imagem é poderosa porque revela um obstáculo que todos conhecemos. Enquanto alguém fala, muitas vezes já estamos preparando nossa resposta, organizando argumentos ou comparando a experiência do outro com a nossa. Não escutamos para compreender; escutamos apenas o suficiente para responder.

É justamente por isso que Alves afirma que nossa incapacidade de ouvir revela uma forma sutil de arrogância. Acreditamos, ainda que inconscientemente, que aquilo que temos a dizer é mais importante. Interrompemos, completamos frases, oferecemos soluções antes mesmo de entender o problema. O outro deixa de ser um sujeito para tornar-se apenas um intervalo entre uma fala e outra.

Em um dos trechos mais belos de Escutatória, Rubem Alves narra a experiência de um amigo entre comunidades indígenas. Nas reuniões, ninguém responde imediatamente. Após cada fala, instala-se um longo silêncio. Não se trata de constrangimento, mas de respeito. O silêncio significa: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.” Essa pausa impede respostas impulsivas e permite que as palavras encontrem espaço para produzir sentido. Talvez uma das maiores lições desse relato seja justamente perceber que compreender exige tempo.

Essa ideia contrasta profundamente com a lógica contemporânea. As redes sociais premiam respostas rápidas; os aplicativos de mensagens exigem disponibilidade permanente; as reuniões são preenchidas por interrupções constantes; até mesmo os momentos de lazer são ocupados por notificações. Criamos uma cultura da reação imediata e perdemos a capacidade da contemplação. O silêncio, antes associado à reflexão, passou a ser confundido com a tão julgada “ausência de produtividade”.

No entanto, as pesquisas em comunicação e comportamento mostram justamente o contrário. Escutar é uma habilidade que pode ser desenvolvida e aperfeiçoada. Não se trata de um traço de personalidade, mas de uma competência relacional.

Thomas Brieu, no livro Escutatória, retoma o conceito criado por Rubem Alves e demonstra como a escuta pode transformar relações pessoais e profissionais. Segundo o autor, “em um mundo onde todos querem falar e poucos sabem ouvir, a habilidade de fazer com que o outro se sinta escutado faz de você uma mãe, um pai, uma pessoa ou um profissional diferenciado”. Sua proposta parte de um princípio simples, mas profundamente transformador: as pessoas não desejam apenas respostas; desejam reconhecimento.

Ao desenvolver o conceito de “prova de escuta”, Brieu mostra que escutar não significa permanecer em silêncio de forma passiva, mas demonstrar, por meio de perguntas, reformulações e interesse genuíno, que a mensagem do outro foi realmente compreendida. Essa postura fortalece vínculos, reduz conflitos, melhora negociações, favorece feedbacks mais produtivos e cria ambientes de maior confiança.

O autor resume essa perspectiva em uma frase que merece ser lembrada: “As pessoas florescem quando recebem atenção.” Talvez por isso ouvir seja um dos gestos mais generosos que alguém pode oferecer. Em vez de buscar imediatamente uma solução, muitas vezes basta oferecer presença.

A comunicação contemporânea também distingue diferentes níveis de escuta. A chamada escuta passiva ocorre quando apenas percebemos os sons ou as palavras, sem verdadeiro envolvimento. Há uma presença física, mas pouca elaboração do conteúdo. Na escuta intermediária, existe alguma interação, porém a atenção oscila; distrações, pensamentos paralelos e interrupções impedem uma compreensão completa da mensagem.

Já a escuta ativa representa o mais alto nível de envolvimento. Nela, o ouvinte procura compreender antes de responder. Observa não apenas as palavras, mas também o tom de voz, a linguagem corporal, as expressões faciais e os silêncios. Evita interrupções, formula perguntas, verifica se compreendeu corretamente e suspende julgamentos precipitados. Em outras palavras, coloca o foco genuinamente no outro.

Escutar, afinal, também é reconhecer a dignidade de quem fala. Quando alguém percebe que foi verdadeiramente ouvido, sente-se validado em sua existência. Isso vale para crianças que desejam compartilhar uma descoberta, para adolescentes que procuram compreensão, para idosos que contam histórias, para casais em conflito, para equipes de trabalho e para qualquer relação humana. Antes de sermos validados ou convencidos, queremos ser compreendidos!

Talvez por isso Rubem Alves associe a escuta à beleza. Nos parágrafos finais de Escutatória, ele escreve que “a beleza mora lá também”, referindo-se ao outro. Para encontrá-la, é preciso calar o excesso de ruídos internos e permitir que a experiência alheia nos alcance. Não é apenas um exercício de educação ou cordialidade; é uma forma de comunhão com o nosso interlocutor, tão humano quanto nós próprios…

Defendemos que “escutar” tornou-se a habilidade mais valiosa dentro da competência da comunicação. Isso porque escutar exige superar a crise da indisponibilidade da atenção. A escuta com a presença completa revela capacidade de escolha entre o excesso de vozes e, principalmente, a disposição para reconhecer que o outro pode nos acrescentar. Desejamos, pois, que seja justamente nessa presença silenciosa que as relações humanas recuperem sua inesgotável profundidade.

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