Por Aline Biano – Psicóloga infantil
As férias escolares costumam ser um período aguardado pelas crianças. É tempo de descansar, brincar, dormir um pouco mais tarde, passar mais tempo com a família e sair da rotina. Porém, quando o fim das férias se aproxima, muitas famílias concentram seus preparativos apenas na compra de materiais escolares, uniformes e mochilas. Embora tudo isso seja importante, existe um preparo que merece ainda mais atenção: o preparo emocional.
A volta às aulas representa uma mudança significativa na rotina infantil. Mesmo para crianças que gostam da escola, retomar horários, responsabilidades e reencontrar professores e colegas pode despertar sentimentos diversos, como ansiedade, insegurança, medo ou até mesmo entusiasmo. Todas essas emoções são naturais e fazem parte do processo de adaptação.
É importante lembrar que cada criança vivencia as mudanças de maneira diferente. Algumas demonstram alegria e expectativa, enquanto outras ficam mais irritadas, sensíveis, chorosas ou resistentes. Muitas vezes, esses comportamentos não representam desobediência, mas uma forma de comunicar aquilo que ainda não conseguem colocar em palavras.
Por isso, antes de esperar que a criança esteja preparada para voltar à escola, é preciso ajudá-la a construir essa preparação.
Um dos aspectos mais importantes nesse processo é a previsibilidade.
As crianças sentem-se mais seguras quando conseguem antecipar o que irá acontecer. Saber quando as aulas começam, quem irá levá-las à escola, qual será o horário de acordar, como será a rotina e até mesmo conversar sobre o caminho até a escola contribui para diminuir a ansiedade.
Essa previsibilidade pode começar alguns dias antes do retorno. Ajustar gradativamente os horários de dormir e acordar, organizar juntos os materiais escolares, preparar o uniforme e conversar sobre o primeiro dia são atitudes simples que ajudam a criança a compreender que uma nova etapa está chegando.
Outro ponto essencial é a escuta.
Muitas vezes, diante de frases como “não quero voltar para a escola”, os adultos respondem rapidamente tentando convencer a criança de que “vai dar tudo certo”. Embora a intenção seja tranquilizá-la, esse tipo de resposta pode fazer com que ela sinta que seus sentimentos não foram compreendidos.
Em vez disso, vale a pena perguntar:
“O que está te preocupando?”
“Tem alguma coisa que você está imaginando sobre a volta às aulas?”
“Como você está se sentindo?”
Quando a criança percebe que existe espaço para falar sobre seus medos, dúvidas e expectativas, ela aprende que todas as emoções podem ser acolhidas. Nem sempre será possível resolver imediatamente aquilo que ela sente, mas ouvi-la já produz um efeito importante de segurança emocional.
Outro cuidado necessário é evitar transmitir aos filhos as próprias ansiedades. As crianças observam muito mais o comportamento dos adultos do que imaginamos. Quando os responsáveis demonstram confiança, tranquilidade e segurança, tendem a favorecer uma adaptação mais saudável.
Também é importante compreender que a adaptação não acontece apenas no primeiro dia de aula. Algumas crianças precisam de dias ou até semanas para retomarem completamente a rotina. Durante esse período, podem ocorrer alterações no sono, no apetite, maior necessidade de proximidade com os pais ou momentos de maior irritabilidade. Esses sinais costumam diminuir conforme a criança recupera sua sensação de segurança.
Vale lembrar ainda que rotina não significa rigidez. Crianças precisam de previsibilidade porque ela organiza o mundo interno. Saber o que acontece antes e depois de cada atividade diminui a ansiedade e favorece o desenvolvimento da autonomia. Uma rotina consistente transmite à criança a mensagem de que existe um adulto cuidando do ambiente para que ela possa investir sua energia em aprender, brincar e se desenvolver.
Por fim, é importante que os pais não transformem o retorno às aulas apenas em uma cobrança por desempenho. Antes das notas, das tarefas e dos resultados escolares, existe uma criança que está vivendo um processo de adaptação emocional. Quando ela se sente segura, acolhida e compreendida, aprender torna-se muito mais possível.
Preparar uma criança para voltar à escola vai muito além de comprar um novo caderno. Significa ajudá-la a organizar seus sentimentos diante das mudanças, oferecendo segurança, previsibilidade e disponibilidade para escutar.
Afinal, a aprendizagem começa muito antes da sala de aula. Ela começa dentro de casa, na forma como os adultos acolhem as emoções das crianças e caminham ao lado delas em cada nova etapa da vida.
Aline Biano
Psicóloga Infantil
@psicoalinebiano












