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terça-feira, 24 de março de 2026

A Literatura como ponte: da biblioteca ao consultório

Por Agatha Feiten e Renata Munhoz

Foto: Arquivo pessoal

Em “O Direito à Literatura”, Antonio Candido defende uma ideia que, à primeira vista, pode soar exagerada: a literatura não é um luxo, mas é um direito humano! Pensar a literatura como direito é reconhecer que ela participa ativamente da nossa formação como sujeitos na sociedade. Quando o autor sustenta o acesso à literatura como dimensão essencial da vida humana, ele nos convida a compreender que não se trata apenas de livros, mas do acesso ao campo simbólico, no qual organizamos sentidos, afetos e, principalmente, construímos a nossa identidade.


É a partir dessa compreensão que desenvolvemos um trabalho contínuo alunos de sextos e sétimos anos nas aulas de Língua Portuguesa: a leitura semanal de obras literárias na biblioteca escolar. Mais do que um exercício pedagógico, trata-se de um encontro com a linguagem, com as identidades dos outros e consigo mesmo. Nesse ambiente, o texto literário deixa de ser apenas conteúdo curricular e passa a ser experiência viva, capaz de mobilizar emoções, memórias e reflexões. A partir dessas reflexões, realizamos atividades significativas pautadas pelos textos literários adequados a cada faixa etária.


Esse trabalho ganha ainda mais potência com a presença da psicóloga Agatha Feiten, que acompanha as aulas dessas turmas e também atua em consultório com psicoterapia. Em diálogo com a prática pedagógica, Agatha contribui com um olhar atento para os processos emocionais que emergem a partir da leitura e também para as formas como os alunos constroem suas narrativas dentro e fora do ambiente escolar. Segundo ela, a possibilidade de narrar a própria história está diretamente ligada à saúde emocional: quando conseguimos simbolizar nossas vivências, tornamo-nos menos reféns do imediato e mais capazes de compreender nossos próprios afetos. Servindo-se dessas vivências e de sua experiência com terapias que melhorem a vida de seus pacientes, Agatha emprega recortes literários em seus atendimentos.


A literatura, nesse contexto, opera como um espaço seguro de experimentação psíquica. Ao entrar em contato com personagens, conflitos e enredos, os pacientes acessam emoções que, muitas vezes, ainda não sabem nomear. Trata-se de um exercício de empatia e reconhecimento: ao ler o outro, aprendem também a ler a si mesmos, inclusive com mais criticidade diante das narrativas.


Tal experiência dialoga com conceitos da psicanálise, como o de construção do self. Para o psicanalista Donald Winnicott, a constituição de um self autêntico depende de um ambiente que permita a expressão espontânea do sujeito. A biblioteca e consultório transformam-se em territórios simbólicos de escuta, expressão e elaboração, capazes de contrabalançar a nossa lógica atual, tão acelerada pelo mundo digital.


Entendemos que a dimensão simbólica da literatura é fundamental para a nossa constituição psíquica. É por meio das palavras que o vivido ganha forma. A experiência deixa de ser apenas sensação difusa e passa a se transformar em narrativa, memória e elaboração. Nomear o que sentimos é, também, um modo de existir com mais clareza no mundo. Afinal, é pela linguagem que nos tornamos, de fato, humanos.


Entendemos que narrar não é uma prática restrita aos livros. Nas redes sociais, produzimos diariamente pequenas narrativas de nós mesmos: selecionamos imagens, escrevemos legendas, organizamos acontecimentos e damos sentido ao cotidiano. Ainda que, muitas vezes, essas narrativas sejam fragmentadas ou atravessadas por idealizações, elas revelam a eterna necessidade humana de constantemente (re)contar a própria história.


É nesse ponto que a literatura se diferencia e se torna ainda mais necessária. Enquanto as redes frequentemente nos conduzem à rapidez e à superficialidade, o texto literário nos convida à pausa, à profundidade e à elaboração. Ele amplia aquilo que, no cotidiano digital, tende a se reduzir a registros imediatos. A leitura de textos literários nos ensina a sustentar a complexidade das experiências, a lidar com ambiguidades e a transformar vivências em compreensão real.


Dessa forma, ao integrarmos Educação e Psicologia, nosso trabalho busca garantir não apenas o acesso à literatura, mas o direito de construção da própria narrativa com mais profundidade, consciência e autonomia.


Entendemos que em uma sociedade marcada pela exposição constante, ensinar a narrar-se com verdade talvez seja uma das formas mais urgentes de cuidado. Por isso, divulgamos essa nossa prática conjunta, em busca de reafirmamos a convicção norteadora, de que a leitura é o caminho para sentir, pensar e existir com mais profundidade.

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